
A Academia teve de ser, inevitavelmente, do contra.
Primeiro tenho que dizer que esta deve ter sido a cerimónia da qual saí mais desiludido. Uma estranha cerimónia em que o Rei não foram os filmes, nem Crash, nem Brokeback Mountain, mas Jon Stewart. O apresentador teve uma das mais interessantes e divertidas apresentações de sempre. Certeiro, mordaz, politicamente incorrecto (por contraste à cerimónia em si) e com um grande sentido de timing. "Martin Scorsese 0 oscars, Three 6 Mafia - 1" Esta será certamente a frase da noite.

Em relação aos prémios foi tudo um grande bocejo até à categoria de Melhor Filme. Ok, melhor canção também deixou toda a gente boquiaberta, mas é um prémio menor, que nada acrescenta à consagração de um vencedor. Para além disso a canção é péssima. Estou mesmo a imaginar a maior parte dos membros da Academia, com idades superiores a 60 anos, a ouvir "It's Hard Out There For a Pimp" e a dizer "esta é, sem dúvida a melhor música do ano." Actores e actrizes não surpreenderam, mas não foram por isso mais justos. Phillip Seymour Hoffman foi o único verdadeiramente merecedor da estatueta. George Clooney é banal no aborrecido Siryana, Rachel Weisz estava na categoria errada e Reese Witherspoon pode estar muito bem mas com uma concorrente como Felicity Huffman a sua vitória perde todo o valor. Tal como aconteceu com Gwyneth Paltrow, que ganhou a uma fabulosa Cate Blanchett. Jake Gyllenhaal ficou a ver passar navios, provando que a Academia não é digna de ser presenteada com interpretações deste calibre. Voltou tudo a ser uma competição de popularidade e não de talento.
Crash é um grande filme. Um filme principalmente feito com o coração, seguindo a linha dos filmes-mosaico, tão em voga ultimamente. Dito isto, pessoalmente, considero-o longe de conseguir estar ao nível do épico Brokeback Mountain. A Academia seguiu o caminho mais fácil, mais confortável. Falando com todas as letras, não teve tomates para premiar uma obra arrojada e tocante. Crash é fenomenal, mas não tem calibre, especialmente técnico, para arrebatar o prémio máximo. Magnolia é a melhor comparação que podemos fazer para mostrar o que falta a Crash para ser uma obra-prima.
A vitória foi, como disse, de Jon Stewart e a derrota também não vai para um filme, mas para a Academia. Desiquilibrada, incoerente e a roçar o ridículo. Conservadora demais para premiar Brokeback Mountain mas risívelmente moderna para elevar Three 6 Mafia à categoria de Oscar Winner. Cúmulo dos cúmulos, dá o Oscar a Crash mas retira-lhe toda a importância ao interromper o seu discurso. De uma falta de educação abismal.
De positivo, para além do host, destaco o imponente cenário, o regresso da entrega dos prémios todos em cima do palco principal, assim como o regresso às músicas cantadas pelos artistas originais e as dulpas Meryl Streep-Lily Tomlin, Steve Carell-Will Farrel e Ben Stiller-e o seu fato verde.
O ano passado a academia quis mandar-nos areia para os olhos, mostrar que estava a mudar. Afinal, continua tudo na mesma por aquelas bandas.
Ang Lee levou o prémio de consolação de melhor realizador, para a derrota não ser tão dificil de engolir. Felizmente, o tempo encarrega-se de perpetuar aqueles que realmente interessam.

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